REFLEXÃO SOBRE nada
por Adão Cruz
Pintura de Adão Cruz
Estou a escrever sob a acção de dois copos de tintol e um bagaço. Esta minha psicológica posição trouxe-me à memória o meu pai, apoiado na ombreira da porta da adega em dia de chuva, copo na mão, era eu adolescente, dizendo convictamente que esta vida era uma merda. Morreu nos meus braços com um leve sorriso nos lábios, mais vítima da desilusão do que da cirrose, era eu um jovem médico. Hoje, ao fim de tantas décadas, as suas palavras ecoam dentro de mim como punhaladas, convencendo-me da verdade das suas palavras e de que a vida é mesmo uma merda. Não o seria, penso eu, se o ser humano merecesse ser “humano”. Porém, a degenerescência dos valores é de tal ordem, que é mais honroso ser animal animal do que animal humano. Tudo o que nos pretendem enfiar é falso. A verdade, malignamente adulterada, revolve as entranhas. As notícias são falsas, mentirosas, fabricadas. Já não bastam os vírus associados aos números funestos, aos doentes, à morte, e ainda todos os dias somos fustigados com casos de suicídio, raptos e sobretudo guerras e assassinatos de violência extrema. Há uma tal desvalorização da vida, que facilmente a substituem, de ânimo leve, pela morte irremediável que tudo acaba. Matam-se pessoas como quem mata pulgas ou formigas. Esfacelam-se dezenas de crianças numa escola como quem mata um ninho de vespas. Muitas moléstias da idade me tiram o sono, mas estes estranhos e hediondos crimes matam-me a vida. Não sei o que será pior para um ser humano, se a morte se a destruição da vida, já que ela nada mais será, dure o tempo que durar, do que um amargo sofrimento. Estou nestas cogitações, quando ao lado da minha porta, mesmo à frente dos meus olhos, em plena luz do dia, um homem com uma faca espetada na barriga espera pela ambulância. Aparato policial, homens fardados dos pés à cabeça, uma paisagem lunar na pacatez da rua. Nada comparável, contudo, às demoníacas guerras dos nossos dias, muito para cá da ancestral barbárie, da irracional inquisição, do inferno do holocausto, mas demasiado pungentes aos nossos esgazeados olhos. Nunca pensei, nos dias de hoje, ser tão difícil entender os fantasmas da mente humana e conseguir delinear as fronteiras entre a sanidade e a loucura. Para além de todos os fatores evolucionistas, de ordem genética, biológica, cultural, social, psicológica e educacional, procuro com imenso esforço acreditar que a vida existe, que a família, a escola, o meio social e laboral ainda têm um determinante e importante papel na prevenção destes crimes com que nos deparamos. Porém, sinto que a verdadeira causa da destruição da vida está muito para além do alcance da visão que nos permitem dois copos de vinho e um bagaço. Radica, a meu ver, nos crimes de gravata e colarinho branco, nessa crónica e abominável sede de poder, nessa indigna camuflagem das pessoas tidas como gente de bem, na ganância desenfreada, no obscurantismo de toda a espécie, acenando e encenando o Bem para praticar o Mal. Uma sociedade tão bárbara, que me tira o sono e a esperança de sonhar com um Mundo Melhor.



Sobre nada ou sobre tudo o que nos rodeia. Muitos concordarão. Que fazer? Perguntou há mais de um século o outro…
*CRIMES PERFEITOS*
*é isso mesmo?*
CRIMES PERFEITOS (original de jan/2014, atualizado)
https://gustavohorta.wordpress.com/2026/03/10/44276/